quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Dois trens por Sergio Martins

O trem das sete horas estava cheíssimo. Com esforço consegui entrar no vagão lotado. Os burburinhos, em geral, abordavam temas sobre política e religião (se é que há possibilidade de dissociar tais instituições, haja visto, ser o Brasil, um “laico”). Notei em algumas pessoas que conversavam suas futilidades, uma euforia cínica igual à dos que celebram o carnaval (a festa do corpo que camufla as aflições da alma, a fantasia diária cuja máscara é posta no intuito de esconder as emoções doentias); encobriam-se, uma esperança perdida. A poluição sonora e as piadas fúteis consistiam num método para aliviar a esperança perdida – risos e gritos também são recursos desesperados e muito válidos para abrandar o momento desastroso de nossa política. Acredito que a maioria do povo não se interessa devidamente pela política e não trata a religião tão a sério, por esta razão: esperança perdida. Embora eu seja um sonolento interessado pelo assunto, pertenço ao grupo da esperança perdida; confesso. Inúmeras vezes fui convidado a ingressar na carreira política, porém, nunca gostei de jogos de azar. Sou um aluno esforçado, mas admito que a culpa pelo desinteresse não é minha (também é da Teoria da Conspiração, obrigando-me acreditar que toda informação sobre a política repassada ao povo pelos meios de comunicação, é apenas uma peça do teatro, cujos personagens e seus destinos já são pré-determinados pelos donos do mundo); sou fruto dos históricos atrasos sociais e da subcultura protestante que é predominante nos subúrbios brasileiros. Isto deveria ser trágico, não fosse minha impaciente fome pelo conhecimento filosófico para entender o lugar do homem no mundo, do cristianismo, das teologias, das políticas... A questão é que ter esperança no espaço onde são semeadas a violência e a miséria, trata-se de um caso de milagre. E, aqui, neste Velho Oeste, os milagres raramente chegam, embora os deuses sempre apareçam em época de eleição. 
             No bailar apertado do trem, lembrei-me do "Soneto da perdida esperança" do Drummond:
“Perdi o bonde e a esperança.
Volto pálido para casa.
A rua é inútil e nenhum auto
passaria sobre meu corpo”.
 No Brasil, as instituições políticas e religiosas não funcionam, isto é, são ineficazes, não apenas por serem capitalistas num país em desenvolvimento, o que já é o bastante para a decadência dessa sociedade colonizada que ainda sobrevive à sombra do extrativismo (ora, o exercício da religião deveria ser a busca pela bem do mundo/lar comum de todos mediante a reflexão e o ativismo de uma fé holística, o resgate do valores imateriais e humano-sociais), mas também, porque é através da esperança perdida das pessoas, que os líderes de ambas instituições conseguem capital suficiente para investir na alienação intelectual do povo, e, deste modo, conduzir o rebanho para o abatedouro, sem muito esforço. 
            A poesia de Drummond fora travada de minha mente quando, de repente, um grupo religioso se reuniu e iniciou um culto de onde se ouvia a reza: “...E todo aquele que entrar neste vagão abençoado será pelo poder de Deus...”
Lembrei-me de outros vagões abençoados pela qualidade de vida que sempre estão inacessíveis para os filhos de Deus neste terceiro mundo. Se a maioria dos brasileiros são credos e devotos, porque ainda estamos neste trem de desesperança e miséria? Não seria pelo fato de as pessoas não amarem seus deuses, mas o poder - de seus deuses? O amor ao poder se dá em todas as esferas de classes e religião, tanto a maioria simples que se prostra aos deuses em busca do poder econômico e da posse de uma vida melhor, quanto a minoria que governa o povo qual demônios famintos e devoradores.
Amor e poder, paz e guerra, Vênus e Marte – sociedade desigualmente dividida. 
       Emiti um suspiro contra a janela antes de procurar alívio na graça feminina: a menina bonita, cheirosa e bem arrumada me fez pensar que ela, possivelmente, seguia em mais um dia de trabalho com satisfação; mesmo inserida nos apertados e sufocantes trens existenciais. Na beleza e na força da jovem, uma luz acendia meu olhar, enquanto do outro lado, uma senhora, que também se dirigia ao trabalho, com um semblante de quem perdeu a guerra, parecia estar cansada de tantos trens sem sentido - desde sua mocidade. Foi triste ouvir aquela senhora dizer que seu exercício religioso a proporcionava uma certa suavidade ao oferecer a crença que dias melhores viriam após sua morte; e, mediante sua fala e expressão facial, não foi difícil diagnosticar que nem mesmo sua devoção e a autoajuda religiosa garantem uma vida menos pesarosa. Esperança perdida – poder suprimindo o amor. A imagem fúnebre da senhora parecia um prognóstico de todos os presentes naquele vagão amaldiçoado pelos deuses do Planalto Central e desenganados pelas propostas fenomenológicas da religião.
      “...Fui criado numa comunidade da Zona Oeste carioca, minha vida foi a experimentação da violência em suas muitas dimensões, por isso, jamais consegui absorver a política brasileira como uma esperança inspiradora. Nossas representatividades políticas, já dizia Cazuza, “morreram de overdose”, daí, enxergarmos “o futuro repetir o passado”, “um museu de grandes novidades”. É museu sim, mas, sobretudo, cemitério. Isso mesmo; a política e os políticos, são mortos, o cenário político nacional é um imenso cemitério – do próprio povo brasileiro. E, pela televisão, assistimos diariamente, o funeral do brasileiro e sua esperança. Talvez pelo fato de eu respirar a falência do capitalismo e desacreditar nos modelos “democráticos” e afins, a mim, a política sempre pareceu mais uma cúpula de zumbis que sobrevivem da carnificina do povo. A respeito destes zumbis, esses mortos-vivos políticos, de meu sonolento interesse por política, de minha esperança perdida e das últimas notícias sobre a política nacional, ficarei com minha particular exegese teológica, a partir de uma hermenêutica um tanto equivocada, quem sabe, das palavras de Jesus Cristo: “Deixai os mortos enterrarem seus mortos”.   
O trem da volta era poético: tinha janelas espaçosas e transparentes que me permitiam apreciar a chuvinha fraca regando algumas estações (meus olhos se umidificaram), ao passo que noutras estações, clareadas de um sol vívido, via-se até o mormaço feito plástico incolor e trêmulo subindo por sobre os trilhos (enxuguei meus olhos). Em algumas paradas, apenas sombras (sorri imaginando-me criança abaixo de uma enorme nuvem, bebendo de sua água fresca e lavando-me o corpo suado como acontecia após o futebol). Respirei fundo o delicioso ar condicionado sobre o banco colorido e confortável de dois assentos, à medida em que observava os universitários de olhos fitos em seus respectivos exemplares didáticos. Era como se estivesse num trem de primeiro mundo. Por conta do clima prazeroso, o emprego perdido representava nada mais que uma sensação de estar desorientado num mundo estranho. No desejo de manter a magia do momento, abri a bolsa e puxei minha bússola (a antologia poética de Vinícius de Moraes), e absorto, perdi-me novamente no "Soneto da separação"; pensei até que o poeta poderia ter sentido um pouco do meu desamparo quando fez este poema quando se separava do solo brasileiro numa embarcação pelas águas longínquas do oceano Atlântico, rumo à Inglaterra.
Desci do trem. Sentei-me num dos bancos da mórbida estação de Realengo. O fim daquela manhã de verão me acariciava com um vento fresco e um silêncio arrebatador que às vezes era quebrado pela melodia dos bem-te-vis e dos pardais alvoroçados. Emprego confiscado, esperança perdida e viagem malograda. Tudo seria apenas a estranheza de mais um dia, salvo se, não fosse um senhor negro e forte que me pediu dinheiro para voltar a sua casa, me arrancando os poucos reais que eu tinha. Subitamente, ao pagar a viagem do homem, fiquei alegre: bolso vazio, coração contentado! Voltei a pé para casa. Por alguns instantes permaneci parado na escadaria apreciando o sorriso daquele senhor, suas mãos segurando as minhas mãos com firmeza e maciez, os dedos longos, hesitantes e tão leves, porém, cheios de uma agressiva sensibilidade; e eu que nunca tive pai que segurasse minhas mãos pelos apagões dessa vida, não dominei meu coração abalado. Entreguei-me às lagrimas. Seria normal pensar ter perdido tempo procurando emprego, mas aquela sensação advinda do encontro com o velho, me pusera na ideia de ter ganhado o dia, de ter sido útil ao compartilhar mais que meu único dinheiro: meus sentimentos.

Agora, definitivamente, me encontrava na condição de abençoado. Não abençoado pelo poder dos deuses ou pelos deuses do poder, e sim, pelo amor. Dizem que, vez por outra, Deus se transforma em humano para testar a bondade dos homens semelhantemente ao Jesus negro e mendigo que desceu à Terra só para pedir um pedaço de pão ao personagem principal no fim da obra "O Auto da Compadecida" de Ariano Suassuna; por esse ponto de vista, Deus veio a mim na figura daquele velho que ao me pedir ajuda salvou-me das estranhezas do meu psiquismo aterrorizado pelos contrastes político-religioso-social, porque, em podendo dividir com ele meus sentimentos (materializados na entrega do pouco dinheiro que lhe dei), me vi livre do trem amaldiçoado pelo descaso do poder, e muitíssimo feliz por estar condenado a morar no expresso da poesia que só tem ida, e que apenas segue um destino: o partir-repartir – o amor como único e eterno norte.


Foto: http://www.temmais.com/blog/depontaaponta/Default.aspx?Pagina=2

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