domingo, 24 de outubro de 2010

O velho por Sergio Martins



O velho está preso dentro de sua própria casa. Sempre na cama; descansando. Ora sorri, ora chora e ninguém sabe o porquê. Talvez o sorriso venha das lembranças de momentos alegres como o do nascimento do filho, e o choro aconteça pelo fato de ninguém deixá-lo fumar seu querido cigarro de palha e beber sua deliciosa cachaça em paz.

O velho já não anda, não fala, não enxerga, apenas ouve o canto dos pássaros entrando pela janela do seu quarto e a alegria barulhenta das crianças no quintal convidadas pelo seu filho que não abre mão de ser menino.

O velho que jamais notou a presença das flores neste mundo ou presenteou alguém com elas, na ocasião, se vê obrigado a sentir o bom perfume dos Jasmins e das rosas colocados com todo o carinho de sua esposa no vaso acima da cabeceira de sua cama.

O velho sempre foi descansado para sonhar e cantar, contudo, deseja voltar a ser menos velho para abraçar o céu, soltar a voz pelas esquinas, beijar o luar...

O velho ficou doente pela falta de poesia no coração, e agora que está mais velho do que nunca, quer rejuvenescer, mas não pode, pois só a poesia faz com que as pessoas sejam eternas crianças.

O velho sempre se sentiu velho demais para o amor.

Na verdade, não sei se tenho razão. Sinceramente, acho que entendi tudo errado. Quem sabe se o velho, realmente, um dia já se importou com tudo isso? É provável que o velho, de velhice ou de qualquer outra coisa que seja bem rápida deseja morrer, e assim, livrar-se de vez dessa vida encantadora que ainda insiste em perturbar seus ouvidos com as suaves canções vindas do lado de fora do seu quarto.

Quem sabe, o velho nem mesmo quis nascer, e no momento em que fecha os seus olhos para dormir, vai-se embora muito feliz curtir o seu tão esperado sono em silêncio, longe desta vida sem graça e de todo o barulho infernal desse mundo festivo que tanto desejou sua presença?

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