domingo, 24 de outubro de 2010

Do que necessito por Sergio Martins



Não me seduzem os casarões do suntuoso Bulevar. Os arranha-céus de coberturas milionárias me passam despercebidos.
Minha admiração desconhece os restaurantes com seus pratos exóticos.
Meu paladar ignora as bebidas requintadas dos portentosos. Para mim, não há prazer em seus prazeres. Deles, repudio o charuto, a etiqueta que lhes esconde a identidade, os trajes luxuosos que ostentam a vaidade egocêntrica, a beleza pútrida de suas jóias e musas. As riquezas que possuem são como os seus carros sofisticados: máquinas envenenadas para lhes atirarem em alta velocidade e precisão ao despenhadeiro existencial, cavalo de Tróia fazendo-os correr no autódromo capitalista para gastarem mais e mais os combustíveis de suas emoções.
Dessa espécie, o que careço é a distância. A longitude e só. Quero até mesmo um cemitério apartado, sem jazigo de pedra nobre bem no meio de minha gente simples que descansa em paz.
O que me atrai para uma alegria leve e extensa em meio às mansões da cidade é o casebre tortuoso à borda da favela. A infância longeva que ele abriga. A liberdade do guri negro e paupérrimo com sua velha pipa de plástico, a garotada que curte a vadiagem depois da escola, a morena escultural com os cabelos mal penteados flutuando ao vento do morro, com seus pés descalços, bacia de água na cabeça, o rebolado na cintura, a dança no andar, o samba no corpo e a sensualidade entranhada no espírito folião de toda boa crioula, a obra clássica dos catadores e recicladores de lixo que me capturam o apreço, a política enérgica dos ambulantes e comerciantes, o rico artesanato dos pobres, a filosofia socialista dos que nada tem, os craques invisíveis dos campinhos esburacados de futebol, os cientistas da arte afro, a sabedoria popular, a poesia viva do gueto, a música intelectual da ralé, os artistas que improvisam um meio de sobreviver sem vitimar o meio, sem vitimarem-se pelo meio desumano que nunca consegue lhes furtar a força e o sorriso que mais parece dominar seus dominadores e que em zombando da sofreguidão cotidiana, livram-se do vazio almático de seus senhores e da ausência de paz que carcome os magnatas. Aliás, o que é o riso feliz dos necessitados senão, o riso sarcástico de Deus desprezando e pondo em agonia a presunção e o status dos seus dominadores?.
Tenho saudade do gueto, da farra dos moleques tomando banho de balde ou de mangueira pelos becos no verão, do samba nos bares, das festas simples e cheias de vida nos barracos, da áurea de felicidade que encobre o ar dos empobrecidos, os bailes empolgantes que somente os desprovidos sabem fazer, o sabor do arroz com ovo frito, do tutu de feijão com água bem gelada, do bolo de fubá...
O que me alicia os olhos na pobreza é a suposta miséria da qual minha alma se prende para encontrar sua liberdade. A feiura, a escassez e a dor são partes inseparáveis de mim - e é isso que eu não sei negar. Aliás, cada dia que passa, aceito mais e mais essa dependência de tudo o que é desprezível pelo conceito capitalista, burguês e moralista. Na verdade, creio que minha tara pela insignificância é uma forma inconsciente de me aceitar desnudo em frente ao espelho, de encontrar significados, de me ver nas ruínas a fim de reconstruir alguma coisa de útil. Minha aversão aos atrativos dos tiranos é uma maneira de reconquistar a mim mesmo, de resguardar a beleza cristalina ameaçada pela sedução dos imponentes, de assegurar minha credencial que sombreada à penumbra do sistema, às vezes se vê fragilizada e vencida, esvaindo-se na incredulidade de um dia melhor e de ser-si-mesma - como fumaça urbana nublando as estrelas.

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