quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Em favor da terra por Sergio Martins



A vida é breve e como um vento forte e repentino se esvai acumulando em nós a saudade daquilo que nos fez bem, a tristeza pelo que se perdeu. Mas toda tragédia que acontece fora de nós é mostruário da degradação que nos fragmenta o íntimo: a Terra morre porque o homem vem morrendo para sua essência. No planeta água, a terra paradisíaca morre para dar vida à infernal industrialização. Semelhante ao homem triste do inferno urbano, a Terra está morrendo pela saudade da época em que os índios faziam dela um paraíso sagrado.
Ponho-me a pensar que antes da diabólica colonização, talvez os índios, não sofriam de tristeza que não fosse natural, pois ser infeliz no paraíso seria uma piada de Deus. Por isso, creio, absurdamente, que parte do meu descontentamento acontece pelo rompimento do amor entre o homem e o paraíso sua terra de origem –;  e esta dor do paraíso pela saudade do homem me é revertida numa tristeza crescente. Minha tristeza não vem do apenas do que está diante dos meus olhos como ruínas do paraíso, muito menos de minha incapacidade de lidar com a crise ou com o simples rompimento do prazer ou de um ideal - assim como ninguém está totalmente preparado para o trágico, homem nenhum existe para estar fora de seu habitat natural - e sim, porque o trágico que acontece fora do meu corpo é o diagnóstico das tragédias que há tempos moram dentro de mim.
Então, o que fazer quando essa tristeza cresce e se põe acima de nós? A resposta é simples: voltarmos ao paraíso. Mas como voltar ao paraíso? Volto ao paraíso – lugar onde sou criança feliz – quando contemplo a beleza que restou do Éden perdido. Para mim, a contemplação da beleza é o modo mais cristalino de pensar a vida. A tristeza pela decadência da Terra vem dilacerando-me os sentidos e trato logo de pôr beleza no jardim de minha infância, aos braços da terra; pois sou um ser da terra e com ela tenho um caso de amor:
Na terra negra em que lhe abri um orifício
com meus dedos sedentos, pus minha semente de amor
– Vida longa ao altar de meu contentado sacrifício!
É bonito ver a terra engravidando, agradecida, oferecendo-me o fruto do seu ventre. Copulei com minha amada terra negra e ela deu à luz a um broto. Nosso brotinho fez-se flor-menina que cresceu se encorpando numa árvore lindíssima. E na presença de minha árvore festiva eu volto a ser criança feliz.
Talvez seja por esse motivo que o Rubem Alves, velho e sábio poeta, ame tanto os Ipês amarelos. Disse até que ao morrer deseja que as cinzas do seu corpo cremado seja plantada aos pés de um Ipê amarelo. Quem sabe, também não seja pela mesma razão que o Vinícius de Moraes tenha sido louco pelas Acácias: ''...De verde quereria apenas um colo de morro e de amarelo um pé de Acácias repontando de um quintal entre telhados." Em outro poema dedicado ao Drummond ele disse: "...Babando amor no curral das Acácias, quebrando ferrolhos com a força dos cascos fendidos para não entrar mais bois no chão de dentro, igual a mim..." Acredito que na presença de um enorme Jequitibá, Saint Exúpere sentiu tamanha felicidade de uma criança que acabou plantando um Jequitibá para o seu Pequeno Príncipe ser feliz.
Então, é na esperança de driblar a tristeza e me encontrar com a encantadora infância no paraíso, que comuto afetividade com minha sagrada terra. Daí, a sensação de que sou um fantasma perambulando no cemitério, sensação esta, promovida pelas imagens caóticas urbanas. O progesso tecnológico faz da terra santa um deserto de ossos secos: "Mas, se falei sobre árvores é porque acredito que são os poemas sobre árvores que ressuscitam os ossos secos espalhados no deserto." (Rubem Alves)
Vinícius de Moraes sofreu tanto a dor da terra molestada pelos senhores da guerra, que sobre o deserto de ossos secos dos mortos nas batalhas, lançou esta semente profética:
Sobre os esqueletos dão me a impressão que éreis tambores –
os instrumentos do Monstro– desfibrados a pancadas:
Ó mortos de percussão!
Cadáveres de Nordhausen,
Erla, Belsen e Buchenwald!
Vois sois o húmus da terra
de onde a árvore do castigo
dará a madeira ao patíbulo
e de onde os frutos da paz
tombarão no chão da guerra!
Portanto, em lua de mel com a terra também deixo minha semente de esperança:
A terra inebriou-se de fragrâncias sensuais do puro amor:
Lodo, fogo e cimento mortal a sufocaram,
pedra, águas amargas e lixo a degradaram.
Dorme melancólica a esperança suprimida feito um vapor.
Chegando a primavera, ressuscitaram as suas raízes,
quebrou-se o piso algoz, foi-se o mau tempo:
Deram-lhe mortes, ela ofertou-lhes belezas felizes!

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