terça-feira, 12 de outubro de 2010

O pedreiro por Sergio Martins


Depois de rolar pelas enxurradas, a ardósia esculpida pelos intempestivos capitalistas encontra seu ofício no labor dos pedregais sob o sol a pino igual ao barro lançado ao forno. Com seu chapéu de palha, a pedra sensível esmaga a argila com seus pés revestidos de calos aturando o solo penoso, desce à sua garganta o destilado sorvendo o mal gosto do pó de argamassa e do cigarro que se é consumido junto ao capim mascado, debruça no muro chapiscado semelhante ao quadro acinzentado de suas perspectivas observando a outra parede lisa como um destino incerto e vazio lançando às cintilantes nuvens do céu tropical um sussurro quase mudo, um tanto agradecido, um pouco murmurador e razoavelmente clemente e assim, num rito que se é repetido diariamente, encena dobrar os joelhos idêntico a um devoto em presença do altar: abaixa-se ao chão encrespado de farelos de construção e relaxa o corpo pesado sentindo o coração voltar ao seu funcionamento normal.

A barriga reclama. Se é retirada da estufa improvisada a marmita. Lava-se a colher cheia de massa juntamente com a enxada besuntada de terra em meio ao fumo de cimento que o vento levanta, o garfo escava o feijão em farinha de mandioca e o arroz feito a pá atirada contra o solo enquanto a sombra quente debaixo da árvore já é almejada.

No desfecho da tarefa, semelhante às lesões de pregos nas tábuas, de sua carne rugosa emerge o sangue lacrimejante ao corte afiado dos arames e ripas e tão veloz, o homem das pedras atira o balde ao tonel, a água fresca dimana pela cabeça fazendo-o pensar em apago de incêndio, distraindo a crescente dor lombar, o mal jeito da coluna e os incômodos musculares. Ao secar-se, a fumaça da poeira do piso e do tabaco-de-caco amontoado pelo terreno acidentado se junta novamente à textura de sua pele ressecada feito lama da nata de concreto por cima da terra preta, e ele, sobe suas mãos à testa franzida removendo o suor, o semblante se retorce demonstrando os dentes acirrados, as maçãs magras da face comprimem os olhos e apertando os braços contra a cabeça afaga a nuca, esfrega o rosto numa expressão de inquietude e auto-piedade. Alisa o peito, pretendendo, talvez, massagear o íntimo a fim de amenizar suas pedantes inconformações e os dedos se estalam no momento em que lança de si um assobio ensaísta de uma canção esperançosa ignorando o pessimismo e a vergonha de ser e de estar, todavia, ao ver refletidas na poça de lodo preto a farroupa salpicada em tinta envelhecida e a fisionomia suja de cal, contempla também seu interior diante de um espelho; isto é, a imagem de sua alma como sendo mais um resíduo de terra preta e ínfima. Ele, ele é homem negro! Nada mais que o pó da terra que ao provar do inútil de mover-se em esperanças, há de enfim, voltar ao pó.

A tarde desmorona sobre os cacaréus em edificação enquanto sente descer também suas emoções. Ele, restolho entre os entulhos, cai sobre o montinho de areia macia depois de experimentar o suor de mais um dia deslizar sobre a carcaça rochosa e vulnerável no escorregadio existencial de mais um ganha-pão.

A brita sensível é um simples pedreiro que independentemente de suas sensações, ainda acredita não ser um ser-só ou só mais um. O pedreiro sabe que não é um pedregulho e que a dureza do seu corpo deseja apenas a maciez da cama, o amor apaziguante recebido como gratificação pelo fatigante trabalho de toda uma vida.

O pedreiro não foi feito para a pedreira, mas sua arte é sua alma. E a arte que lhe sua o corpo e a alma não é sua; pois não vem de si. É  arte abstrata e absinta, beleza concreta e cruel que de súbito lhe arrebata o prazer como filhotes das cabras monteses que somem pelo mundo quando aprendem a andar sem deixar endereço ou explicação.

Um comentário:

Helena de Campos disse...

Pedras... brutas, preciosas, lapidadas pela dor, pela vida, pelo amor e desamor, pela fome e esperança... pedras q rolam e se acomodam... pedreiros.

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